21.01.2006
Palmada é fundamental
A "palmada" de um pai em um filho foi condenada pelo Legislativo. Estamos em um caminho correto? Não, não estamos! Ouso dizer isso e me manter como um pensador libertário. Explico.Que fique claro: palmada não é uso de palmatória (figura) nem o abuso do espacamento. Estamos falando de palmada - um tapa ou tapinha. Sabemos bem do que se trata quando falamos de palmada. Na Inglaterra, por exemplo, ela é autorizado por lei como elemento corretivo que pode ser usado por pais e até professores. Alguns ingleses, de fato, querem rever tal lei, que é de 1933. Mas Tony Blair, trabalhista e, não necessariamente "de direita", é contra.
E nós? Que posição temos?
A questão não é somente pedagógica. Ela é filosófica. Se me lerem com atenção, vão entender o ponto básico.
Os petistas que, uma vez na Câmara, propuseram o fim da palmada não leram nada de pedagogia - não de pedagogia séria. Não sabem que a individualidade que conseguimos, intelectual e moral, é um processo que vem do nosso entendimento do que é o espaço físico. E para dominarmos o espaço físico temos de usar do corpo, e entender onde começa o corpo e o poder do outro e até onde é possível ir com o nosso próprio corpo e nosso próprio poder físico.
Os petistas que, na Câmara, querem o fim da palmada, não leram nada de política ou antropologia - não da política e da antropologia que vale a pena. Uma coisa é a violência, outra coisa é a branda punição física. Uma sociedade em que o contato físico, do tipo da palmada, é reprimido por lei, é certamente uma sociedade cujas tensões vão acabar explodindo em outros níveis, muito perigosos.
Uma das características dos nazistas era a de ser muito polidos com os filhos. A punição física em relação a filhos e em relação a animais era algo que Hitler não tolerava. A idéia básica era a de que a Alemanha precisava "abortar seus comportamentos selvagens". Já Adorno, o filósofo da Escola de Frankfurt, que sempre foi um advogado da não violência, escreveu certa vez: "uma criança que arranca as asas de um inseto, para vê-lo sofrer, tem de receber uma palmada na mão".
Adorno não precisaria ter lido nada de psicanálise para saber que, pedagógica e psicologicamente, ele estava certo. Filosoficamente, mais ainda. Uma sociedade onde a força física do pai não pode ser sentida pelo filho, em termos experimentais, brandos e de acordo com a vivência normal, vai muito mal. Pois o filho deseja saber até onde está o limite do pai, para ver onde é que está o limite verdadeiro entre a violência e o repreendimento. Só assim ele poderá escapar de contribuir para uma sociedade que não vai abolir a violência, que apenas reprimi-la e, então, irá acabar deixando o monstro aparecer mais tarde de forma terrível. Uma sociedade onde pais e filhos não podem se experimentar fisicamente, certamente não saberá diferenciar o beijo da agressão. Pior: tal sociedade irá gerar uma legião de homens e mulheres que, uma vez não tendo podido ir até os limites de confrontação com o pai, com o adulto, o que é necessário para uma saldável passagem pelo complexo de Édipo (ou qualquer coisa do tipo), deverá certamente não conseguir passar para a vida plenamente adulta.
A palmada de repreensão é histórica e natural. Todos os mamíferos a praticam, todas as sociedade humanas a praticam.
Nos humanos, ela faz parte de uma relação onde um adulto e uma criança descarregam tensões que, de outra forma, não encontrariam canal saudável. Também é assim em certas situações amorosas e sexuais, onde há tapas entre casais - muitas vezes tapas fortes. Essa catarse e essa experiência dos mamíferos se confunde com o gozo, com o amor, mas ao mesmo tempo é o necessário para termos a experiência do físico do outro de um modo amplo, e sabermos claramente onde há amor e onde não há. Temos corpo. Não somos anjos. Na filosofia, esse encontro com o corpo, a partir de Schopenhauer, foi fundamental para entendermos como temos de entender as emoções não como "paixões da alma" somente. A tentativa de disciplinar nossos corpos até ao ponto de anulá-los é o grande perigo da história - a idéia de que uma geração de humanos pode ser uma geração de anjos é um dos maiores pecados filosóficos que se pode cometer.
Essa idéia de testar o físico do outro para poder medir o quanto o jogo de poder pode seguir seu curso sem que exista humilhação, é fundamental. Proibido isso, não há sublimação, há sim repressão exterior e, por conseguinte, surgirá aquilo que Adorno e Horkheimer diziam que iria vir, mais tarde, em forma de violência de todos contra todos. O não aprendizado de limites e do que é a dor é o elemento principal que faz com que exista a tortura fria das sociedades totalitárias. Pois o que é reprimido com a lei que instaura, por decreto, o Céu na Terra, pode levar a perdermos a noção do que é estar na Terra. Estar na Terra é, sempre, ter um corpo, sofrer dor, saber o que é a dor e como é que ele realmente não pode ser usada indiscriminadamente. Isso se aprende na experiência - cujo elemento central é a palmada. Ninguém pode tirar isso da educação, pois tiraria nossa própria condição humana.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo - www.ghiraldelli.pro.br e www.filosofia.pro.br
20:35 Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail